Preâmbulo de Katipsoi Zunontee
OS DISCURSOS DE KATIPSOI ZUNONTEE
APÊNDICE I
Origem de ASSIM FALAVA KATIPSOI ZUNONTEE
APÊNDICE II
Histórico da Origem de ASSIM FALAVA KATIPSOI ZUNONTEE
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ASSIM FALAVA
KATIPSOI ZUNONTEE
Um livro para todos e para ninguém
KATIPSOI
ZUNONTEE
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PRIMEIRA PARTE
PREÂMBULO DE KATIPSOI ZUNONTEE
I
Aos trinta anos apartou-se Katipsoi Zunontee da sua pátria e do lago da sua pátria, e foi-se até a montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua soledade sem se cansar. Variaram, porém, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo-se com a aurora, pôs-se em frente do sol e falou-lhe deste modo:
“Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te abeiras da minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver-te-ias cansado da tua luz e deste caminho.
Nós, porém, esperávamos-te todas as manhãs, tomávamos-te o supérfluo e bemdizíamos-te.
Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha que acumulasse demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim.
Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres da sua riqueza.
Por isso devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpões o mar para levar a tua luz ao mundo inferior.
Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir.
Abençoa-me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande!
Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela manem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria!
Olha! Esta taça quer de novo esvaziar-se, e Katipsoi Zunontee quer tornar a ser homem”.
Assim principiou o caso de Katipsoi Zunontee.
II
Katipsoi Zunontee desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou-se-lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua santa cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Katipsoi Zunontee desta maneira:
“Este viandante não me é desconhecido: passou por aqui há anos. Chamava-se Katipsoi Zunontee, mas mudou.
Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não terá medo do castigo que se reserva aos incendiários?
Sim; reconheço Katipsoi Zunontee. O seu olhar, porém, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino!
Katipsoi Zunontee mudou, Katipsoi Zunontee tornou-se menino, Katipsoi Zunontee está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem?
Como no mar vivias, no isolamento, e o mar te levava. Desgraçado! Queres saltar em terra? Desgraçado! Queres tornar a arrastar tu mesmo o teu corpo?”
Katipsoi Zunontee respondeu: “Amo os homens”.
“Pois por que — disse o santo — vim eu para a solidão? Não foi por amar demasiadamente os homens?
Agora, amo a Deus; não amo os homens.
O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar-me-ia”.
Katipsoi Zunontee respondeu: “Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens”.
“Nada lhes dês — disse o santo. — Pelo contrário, tira-lhes qualquer coisa e eles logo te ajudarão a levá-la. Nada lhes convirá melhor, de que quanto a ti te convenha.
E se queres dar não lhes dês mais do que uma esmola, e ainda assim espera que tá peçam”.
“Não — respondeu Katipsoi Zunontee; — eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso”.
O santo pôs-se a rir de Katipsoi Zunontee e falou assim: “Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar.
As nossas passadas soam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi-las perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes do alvorecer: Aonde irá o ladrão?
Não vás para os homens! Fica no bosque!
Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?”.
“E que faz o santo no bosque?” — perguntou Katipsoi Zunontee.
O santo respondeu: “Faço cânticos e canto-os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro.
Assim louvo a Deus.
Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao Deus que é meu Deus. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?”.
Ao ouvir estas palavras, Katipsoi Zunontee cumprimentou o santo e disse-lhe: “Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar-me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma”.
E assim se separaram um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas.
Quando, porém, Katipsoi Zunontee se viu só, falou assim, ao seu coração: “Será possível que este santo ancião ainda não ouvisse no seu bosque que Deus já morreu?”